DSC_0647
Peixe & Frutos do Mar

Tradição de Páscoa: Bacalhoada Portuguesa

DSC_0626

Aqui em casa, o bacalhau sempre foi o protagonista em uma data bem específica: a Páscoa. Eu costumo ser a responsável por puxar a fila das sugestões do almoço que, claro, sempre tem bacalhau no meio. No entanto, não foi de cara que ele ganhou o meu coração (ou estômago). Para ser bem honesta, eu bem que torcia todos os anos para a minha mãe se esquecer de colocá-lo na cesta de compra. Mas, como tudo na vida muda, é claro que uma hora eu me rendi e caí de amores. Para inspirar o almoço de Páscoa, hoje é dia de uma receitinha pra lá de tradicional: Bacalhoada.

DSC_0638

Quando eu era pequena, bacalhau era sinônimo de tortura: cheiro e gosto ruim. Ou seja, eu não chegava nem perto de qualquer coisa que levasse bacalhau. Um dia, já adolescente e viajando com uma amiga da escola e os pais dela, fui surpreendida: teríamos o “famoso bacalhau da dona Luzia” para o almoço. Eu não podia recusar, seria muita falta de educação. Quanto mais chegávamos perto da hora de comer, mais pânico eu sentia. Sentei à mesa, fui servida – e nem pude dizer “menos, por favor”, e comi. Resultado? Amei, repeti e ainda pedi para a minha mãe anotar a receita. Desde então, descobri o quanto bacalhau podia ser bom.

DSC_0641

Desde que aprendi a comer bacalhau, procurei saber um pouco mais sobre o peixe. E a primeira lição de todas, é que bacalhau não é um peixe específico e sim o modo de salga. São usados os tipos Gadus Morhua (o Cod Imperial da alta gastronomia), o Ling, o Saith e o Zarbo. Todos eles passam por uma salga e uma secura que resultam no peixe de sabor e cheiro marcante que conhecemos.

DSC_0646

O bacalhau é tradicional na mesa em datas festivas, porque na Idade Média a Igreja Católica pregava que durante dias santos as “carnes quentes” deveriam ser excluídas da dieta. Peixes eram considerados “carnes frias”, portanto, podiam fazer parte das refeições cristãs. Aqui no Brasil, o consumo de bacalhau ficou mais forte com a chegada da Corte Portuguesa e dos comerciantes lusos, que exportavam a iguaria da Noruega direto para os banquetes reais. Durante anos, foi considerado um prato barato e presente especialmente na mesa das camadas mais populares. Com 2ª Guerra Mundial e a escassez dos alimentos no continente europeu, o preço do bacalhau aumentou e deixou de ser próprio para o consumo popular. Ao longo dos anos, isso mudou cada vez mais, até virar principalmente um prato próprio para as datas festivas.

DSC_0657

O bacalhau por si só já carrega todo o sabor do prato. Ou seja, não precisamos de muito para fazer com que a bacalhoada brilhe. Eu gosto de comprar bacalhau seco e fazer a dessalga em casa. Acredito que o bacalhau que já passou pela dessalgada (e normalmente vem congelado), não tem o mesmo sabor. Além do peixe, o azeite também faz toda a diferença: um excelente azeite extra-virgem leva o prato a um outro patamar. Ele dá sabor, mas também é o responsável por deixar a carne bem macia. Se você tiver paciência, prepare a bacalhoada no dia anterior ao almoço para que ela  apure ainda mais o sabor!

DSC_0659

Agora chega de conversa, e vem comigo!

Para uma travessa de bacalhau (serve aprox. 6 pessoas):

  • 1,5kg de bacalhau
  • 700g de batata
  • 2 cebolas médias
  • 3 tomates (se estiverem grandes, use apenas 2)
  • ½ pimentão vermelho
  • Q/N de azeitonas
  • 1 xícara de chá de azeite extra-virgem
  • Ovos – opcional
  • Sal – APENAS se REALMENTE houver necessidade

Se você optar pelo bacalhau seco, faça a dessalga no dia anterior ao preparo. Lave o bacalhau em água corrente e corte em postas. Cubra as postas com água e troque-a 4 vezes em um período de 24h para tirar o sal e hidratar o peixe seco.

Lave as batatas e cozinhe em fogo alto até elas ficarem macias, mas não moles! Espete um garfo em uma batata e, se ele entrar e sair com facilidade, está no ponto. Desligue, retire da água e descasque. Reserve.

DSC_0585

DSC_0596

Em uma panela, coloque as postas de bacalhau com a pele para baixo em uma panela e cubra com água. Lembre-se de colocar as postas mais grossas por baixo e as mais finas por cima, já que o tempo de cozimento de uma para outra é diferente. Ligue o fogo e deixe o peixe cozinhar. Quando a água começar a ferver, uma espuma branca subirá. É normal! Retire com uma espumadeira conforme ela for subindo. Espete com um garfo para ver se a carne está macia. Se ela estiver no ponto, desligue o fogo e retire as postas da água quente.

DSC_0507

DSC_0517

Com as postas ainda quentes, comece a limpar uma por uma. Retire a pele com um faca e tome cuidado para não tirar a carne junto! Eu gosto de “apertar” delicadamente o bacalhau para sentir os espinhos. Retire os espinhos conforme for tirando os nacos da posta. Reserve.

DSC_0529

DSC_0532

Corte a cebola em quatro partes e depois divida cada uma delas em dois. Com as mãos, desfolhe a cebola para formar pétalas. Reserve.

DSC_0537

Corte o tomate pela metade, retire as sementes e corte cada metade em julienne (tirinhas). Reserve.

DSC_0546

Corte as batatas pela metade, no sentido do comprimento. Novamente, corte cada parte pela metade e depois em cubos. Reserve.

DSC_0525

Parta o pimentão pela metade, retire as sementes e corte em julienne (tirinhas). Reserve.

DSC_0549

Escolha um bowl que seja grande. Como vamos misturar todos os ingredientes, é importante ter espaço para fazer isso com folga. Junte o bacalhau em lascas, as batatas em cubos, as cebolas em pétalas, os tomates e os pimentões em julienne e acrescente o azeite. Misture delicadamente.

DSC_0552

Acrescente as azeitonas quando for assar. Asse em forno médio (220º), cubra a travessa com papel alumínio para não ressecar e asse até esquentar. Algo em torno de 20 minutos. Enquanto isso, se optar por uma decoração, cozinhe os ovos em água fervente. Depois de cozidos, descasque-os, corte-os em rodelas e coloque sobre a bacalhoada assada.

Dicas: arroz branco acompanha perfeitamente a bacalhoada. Escolha um vinho verde e sirva-o bem gelado!

Bon Appétit!

Bisous,

Mariana Muller

Write a comment